Empresas familiares resistem, mas esbarram em impostos, crédito caro e sucessão
Depois de perder o emprego às vésperas do casamento, o empreendedor Diego Eduardo Vanderlinde viu em um problema doméstico a oportunidade de começar do zero. Ao contratar um serviço de limpeza de sofá e se frustrar com o resultado, decidiu fazer melhor. Comprou produtos, conseguiu apoio da família para investir no primeiro equipamento e começou atendendo amigos. Assim nasceu, há cerca de 11 anos, a SOS Sofá Limpo, negócio que hoje toca ao lado da esposa Isabela. A trajetória, no entanto, esteve longe de ser linear. Diego começou a empresa sozinho. Um ano depois, a incorporou a outra que também atuava na área de higienização, o que a fez crescer rapidamente, saltando de um faturamento inicial entre R$ 5 mil e R$ 7 mil por mês para cerca de R$ 40 mil por mês em um ano e meio, chegando a R$ 70 mil antes da pandemia. Mas conflitos societários levaram a uma ruptura. Em 2023, Diego saiu da sociedade e reestruturou a empresa para seguir apenas com a esposa como sócia. “Saí da sociedade só com a carteira de clientes, sem equipamentos. Tive que recomeçar praticamente do zero”, conta. Hoje, o negócio voltou a se estabilizar, com faturamento entre R$ 20 mil e R$ 25 mil mensais, operado apenas pelo casal, com apoio pontual de freelancers. A história expõe uma realidade comum no Brasil: empresas familiares têm alta capacidade de adaptação, mas enfrentam obstáculos estruturais para se manter ao longo do tempo. Responsáveis por cerca de 90% dos negócios no país e por aproximadamente 65% do PIB (Produto Interno Bruto), segundo o Sebrae e o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as empresas familiares são a base da economia brasileira. Ainda assim, poucas conseguem atravessar gerações. Apenas 30% chegam à segunda geração, e uma parcela ainda menor avança para a terceira, segundo a mesma pesquisa. Para José Venâncio, consultor de negócios do Sebrae-SP, o principal entrave está na falta de planejamento. “O que observo é que empresas e pessoas não planejam. A sucessão precisa ser estruturada para que o negócio continue de forma saudável”, afirma. Segundo ele, é comum que os herdeiros não estejam preparados ou sequer interessados em assumir a operação, o que fragiliza a continuidade. Além das questões de gestão, a carga tributária aparece como um dos principais desafios. No caso de Diego, a mudança de regime já trouxe impacto direto. Após ultrapassar o limite do MEI (Microempreendedor Individual) no ano passado, ele precisou migrar para o Simples Nacional e lidar com novos custos e obrigações. “Hoje tenho contador, pago guias mensais e até multa, que precisei parcelar, por conta da mudança. Isso pesa no dia a dia”, diz.90% dos negócios do país são familiares
Impostos complexos afetam estrutura das empresas